quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A colheita é mandíbula de fera
que aos poucos dilacera imberbes vidas,
consumindo-as nas brasas que ainda vingam
após as labaredas da limpeza.
A colheita é também um faconaço
rompendo da consciência inexperiente
em direção à carne sem defesa
do jornaleiro infanto-juvenil.

A cegueira patrona é uma tragédia,
embora justifique seus contratos
como obra social de relevância.
A sorte dos meninos, entretanto,
desmascara a indecente hipocrisia
da vil capatazia sanguessuga.

Nesse mar proceloso de aflições,
servindo de joguete às infernais
idealizações dos safardanas,
agitam-se as crianças lamurientas,
sucumbindo ao desterro do infortúnio.
De sol a sol, abóbora, feijão,
água salobra e um catre pro descanso.
Das mãos desnudas, brotam calos vivos;
do peito nu, renascem cicatrizes;
do rosto frio, emerge o olhar sem rumo.
É na alma que os grilhões da dor se aferram.

Legião subnutrida e analfabeta,
é o inocente instrumento da ambição,
enquanto a liberdade voa ao léu.

Hipócritas históricos confundem
a sociedade inteira com inverdades;
não revelam que a fome e as opressões
que pairam sobre os lares carcomidos
são as lídimas fontes das revoltas.

Tirânica República do Olvido,
negando o pão sagrado aos que, famintos,
multiplicam anônimos carneiros
nos pagãos cemitérios dos banidos.
Não há pobreza digna, onde a fome
protagoniza o enredo do destino
da prole anestesiada em pesadelos.

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